Regra do governo Lula contra golpes pode prejudicar pesquisas por telefone — Publicado por: Folha de S.Paulo, 13/10/2026

Medida limita número de chamadas e, com isso, pode impedir institutos de opinião  de alcançarem quantidade necessária de entrevistas 

Governo afirma que texto não afetará pesquisas sobre as eleições de 2026, e que  regra sobre bloqueios só entrará em vigor em 30 dias 

Clayton Castelani 

A nova regra criada pelo governo Lula (PT) contra golpes telefônicos pode inviabilizar  levantamentos feitos por telefone no país, segundo institutos de pesquisa. 

A barreira existe porque a norma fixa o limite de 10 mil ligações diárias. Antes, ele  era de 100 mil. Empresas de opinião realizam dezenas de milhares de chamadas por  dia para obter amostras estatísticas confiáveis. 

Publicada nesta terça (13), a medida provisória 1.396 prevê o bloqueio por 15 dias  de linhas que ultrapassem o limite de chamadas. O texto também obriga as  operadoras de telecomunicações a autenticar todas as ligações. As empresas de  telefonia ainda precisam identificar o nome e a marca de pessoas jurídicas na tela do  celular. 

Em nota à Folha, o governo afirma que a medida não afetará as pesquisas sobre as  eleições em curso, argumentando que o texto publicado prevê que “os bloqueios só  poderão ocorrer após 30 dias de vigência da MP, ou seja, a partir de 14 de  novembro”. 

Consta na medida provisória que as obrigações “quanto ao limite por acesso, serão  exigíveis no prazo de trinta dias, contado da data de publicação”. 

O governo diz ainda, em nota, que regulamentação da Anatel (Agência Nacional de  Telecomunicações) poderá lidar com a especificidade dos institutos de pesquisa. 

“A especificidade de atividades como a dos institutos de pesquisa poderá ser  considerada na regulamentação, com inclusão de critérios adicionais para proteger o  consumidor e inserção das ressalvas necessárias à preservação das comunicações  legítimas”, consta na nota.

“A finalidade da norma é combater fraudes e chamadas indesejadas, e não restringir  o trabalho dos institutos de pesquisa. A regulamentação da Anatel observará essa  finalidade.” 

A nova regra libera das restrições os órgãos públicos e os prestadores de serviços de  saúde, de segurança pública e de defesa civil. O texto do governo, no entanto, não  cita as empresas de pesquisa de mercado e de opinião pública. 

A omissão cria um problema para o setor de pesquisas, que depende de um alto  volume de tentativas para alcançar o número de entrevistados necessário. 

Antonio Lavareda, presidente do Conselho Científico do Ipespe (Instituto de  Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas) e presidente de honra da Abrapel  (Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais), considera que houve erro de  redação no texto por não incluir pesquisas no artigo de exceções. 

O Ipespe realiza a maior parte de seus estudos por telefone, inclusive parte das suas  pesquisas eleitorais. O instituto disca cerca de 150 mil vezes por dia para montar os  levantamentos. 

Lavareda diz, no entanto, não acreditar que a medida tenha a intenção de prejudicar  pesquisas eleitorais. “Parece que houve uma externalidade [efeito colateral do texto  legal] produzida por certo descuido na redação”, comenta. 

A diretora do Datafolha, Luciana Chong, confirma o impacto no mercado. O  Datafolha realiza as pesquisas eleitorais de forma presencial (em pontos de fluxo  populacional), que não são afetadas pela regra. Mas o instituto opera pesquisas por  telefone em outros segmentos. 

Chong afirma que as empresas dedicadas ao modelo telefônico não conseguem  trabalhar sob o novo teto. 

A diretora do Datafolha explica que a taxa de resposta por telefone exige muitas  tentativas para a criação de amostras representativas. 

Ver matéria original: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/regra-do-governo-lula-contra-golpes-prejudica-pesquisas-eleitorais-por-telefone.shtml