Artigo: risco de desmobilização em metrópoles e abismo logístico no interior ameaçam Lula no 2º turno — Publicado por: O Globo, 20/10/2026

Com 33,47 milhões de faltosos no primeiro turno, custos de deslocamento no  interior e exaustão do eleitorado nos centros urbanos atingem redutos petistas,  enquanto Flávio Bolsonaro aposta na inércia para preservar vantagem Por Helcimara Telles e Bruno Bicalho* 

20/10/2026 15h25 Atualizado há 17 horas 

Diante de um contingente de 21,08% do eleitorado que não compareceu às urnas no  primeiro turno, o mapa da abstenção se transformou no principal desafio analítico e  estratégico para os comitês neste segundo turno. Mais do que persuadir indecisos  ou reverter escolhas já cristalizadas, as campanhas enfrentam agora o desafio da  mobilização: conter o esvaziamento em estados onde as disputas locais já se  encerraram e superar as barreiras territoriais que separam o eleitor da urna. 

O desafio agora vai muito além de virar votos: o risco de desmobilização em praças  já decididas e o abismo logístico no interior do país forçam os comandos políticos a  recalcular rotas para tentar levar o eleitor de volta à urna. 

Uma análise detalhada dos números revela os limites de qualquer interpretação que  trata o abstencionista como um bloco homogêneo ou reduza sua ausência à simples  apatia política. O fenômeno expõe clivagens profundas no comportamento eleitoral  brasileiro, dividindo o país entre a abstenção involuntária, produzida por custos  materiais e logísticos de deslocamento, e o desengajamento voluntário nas grandes  metrópoles. 

O fantasma do isolamento e o custo do voto 

O maior desafio logístico concentra-se no interior profundo do país. Minas Gerais  tornou-se o principal símbolo desse gargalo, abrigando oito das dez cidades com as  maiores taxas de abstenção do Brasil, lideradas por Rio Vermelho (40,09%) e Santo  Antônio d Itambé (39,55%). Contudo, o fenômeno replica-se em outros contextos  estaduais, como prova a goiana Anhanguera (37,11%). Veja aqui o mapa da  abstenção. 

Os dados eleitorais, por si sós, não explicam as trajetórias individuais desses  ausentes, mas permitem levantar uma hipótese consistente sobre o papel da evasão  populacional nessas microcidades, que vêm perdendo dinamismo econômico. Em  muitas dessas localidades, parte da população em idade ativa desloca-se de forma  sazonal ou permanente para polos regionais e capitais em busca de emprego, mas  preserva o título eleitoral na cidade natal. Sem a transferência do domicílio eleitoral, 

e fora do alcance do voto em trânsito, restrito a municípios maiores, o voto passa a  exigir um custo de viagem muitas vezes proibitivo, convertendo a distância física em  abstenção involuntária. 

Em estados como Amazonas e Mato Grosso, o risco de esvaziamento das urnas  passa pela geografia. A distância de comunidades ribeirinhas e a precariedade de  estradas vicinais impõem uma barreira que as campanhas só conseguem romper  com forte injeção de logística e cobrança por transporte público gratuito no dia do  pleito. Nas zonas no exterior, o cenário de distâncias é ainda mais letal e os  obstáculos ainda maiores para o comparecimento: a abstenção chegou a expressivos  62,69%. 

O alerta da desmobilização nas metrópoles 

Se nos pequenos municípios do interior a ausência reflete barreiras de acesso, nos  grandes centros urbanos o fenômeno dialoga com o desencanto político e com as  condições da vida metropolitana. É justamente nessas praças, onde o transporte é  mais acessível e onde se concentra o maior volume absoluto de votos, que reside o  principal ponto de atenção das coordenações de campanha. 

Uma variável frequentemente subestimada nas análises sobre o comparecimento  urbano é a organização do mundo do trabalho. Embora o artigo 380 do Código  Eleitoral estabeleça o dia da eleição como feriado nacional, a autorização para o  funcionamento de parte do comércio, de shoppings e do setor de serviços,  combinada ao desgaste de jornadas exaustivas, incluindo a escala 6×1, eleva o custo  de oportunidade do voto para milhões de trabalhadores. 

Não é fortuito que o fim da escala 6×1 tenha dobrado de relevância durante a  campanha, consolidando-se na pesquisa divulgada pelo Ipespe/Abrapel como o  tema mais decisivo para os eleitores de Lula neste segundo turno (20%), índice que  salta para 33% entre os jovens de 16 a 34 anos que apoiam o presidente. Entre a  fadiga física e a rotina de expediente aos domingos, parte do eleitorado acaba  silenciosamente afastada das urnas. 

As duas maiores metrópoles do país lideram o ranking absoluto de ausências e  somam, sozinhas, mais de 3,4 milhões de votos não depositados: Rio de Janeiro  (26,12%) e São Paulo (23,39%). O diagnóstico que emerge desses números combina  o esvaziamento típico de feriados prolongados nas camadas médias com sinais de  fadiga cívica nas bordas urbanas, tendência que pode se acentuar no Sudeste e no  Centro-Oeste neste segundo turno. 

Top 10 municípios com maior volume absoluto de abstenções

Posição Município Abstenções (absoluto) Abstenções (%)
1 São Paulo (SP) 2.138.713 23,39%
2 Rio de Janeiro (RJ) 1.293.714 26,12%

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3 Belo Horizonte (MG) 464.334 23,61%
4 Brasília (DF) 426.924 18,90%
5 Salvador (BA) 393.886 20,14%
6 Curitiba (PR) 279.056 19,72%
7 Porto Alegre (RS) 255.333 23,99%
8 Manaus (AM) 254.036 17,20%
9 Fortaleza (CE) 233.859 13,02%
10 Campinas (SP) 205.914 23,57%

Fonte: TSE/ Produção própria 

Esse quadro contrasta com a dinâmica observada no Nordeste. Capitais como  Fortaleza (13,02%, a menor taxa entre as grandes cidades do país) e Recife (15,94%)  mantiveram as urnas cheias, evidenciando uma intensa capilaridade e o  engajamento ativo das periferias. De modo semelhante, microcidades com menos  de 5 mil eleitores no Sul e no interior do Piauí, como Bela Vista do Piauí e a  catarinense Rio Fortuna, tiveram participação próxima à totalidade, impulsionadas  por populações residentes mais estáveis e pela intensa coordenação política de  lideranças locais. 

A geopolítica dos ausentes e a conveniência da apatia 

A leitura fria das taxas proporcionais municipais costuma esconder o dado político  central deste segundo turno: a abstenção tem CEP, classe social e peso geopolítico  profundamente desiguais. Quando se examina onde estão, de fato, os 33,47 milhões  de votos que deixaram de existir no primeiro turno, percebe-se que o silêncio das  urnas não é um acidente demográfico, mas um ativo político disputado ou  deliberadamente ignorado pelas máquinas estaduais. 

Quase metade de toda a ausência eleitoral do país está represada no Sudeste, que  responde sozinho por 45,01% das abstenções (15,06 milhões de eleitores). Somado  ao Sul (13,98%, ou 4,67 milhões), o eixo centro-sul concentra quase 60% dos  brasileiros que cruzaram os braços no primeiro turno. 

O dado mais revelador dessa hipertrofia é o de São Paulo: com 7,69 milhões de  faltosos (22,98% do total nacional), um único estado produziu praticamente o  mesmo contingente de ausentes que os nove estados do Nordeste inteiros somados  (8 milhões, ou 23,91%). Na prática, quase metade dos brasileiros que deram as  costas à eleição vive na tríade São Paulo, Minas Gerais (3,73 milhões) e Rio de  Janeiro (2,99 milhões).

Esse mapa de abstenções é incômodo para a candidatura de Lula. Nos três maiores  colégios eleitorais do país, assim como no Paraná (1,77 milhão de ausentes) e no Rio  Grande do Sul (1,81 milhão), o comando político das máquinas estaduais e da  maioria das grandes prefeituras está nas mãos de forças conservadoras ou de  centro-direita que já resolveram suas prioridades no primeiro turno. 

Nesses estados, onde Flávio Bolsonaro lidera com folga (53% no Sudeste e 61% no  Sul, segundo pesquisa Ipespe/Abrapel), a apatia metropolitana nas periferias  funciona como contenção informal em favor da oposição: não há incentivo político  para que governadores e prefeitos desse arco se esforcem em garantir transporte  eficiente, fiscalizar o cumprimento do feriado eleitoral no comércio ou criar clima de  mobilização cívica. O esvaziamento das urnas nas franjas urbanas de São Paulo, da  Baixada Fluminense ou da Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde mora o  trabalhador de até dois salários mínimos que ainda sustenta a competitividade do PT  no Sudeste, serve perfeitamente ao projeto de manter o placar congelado. 

No Nordeste, o paradoxo é de outra natureza e expõe a fadiga da dependência  governista. Embora a região seja celebrada pelo petismo como seu principal bastião  eleitoral, ela deixou na estrada 8 milhões de votos no primeiro turno, mais da  metade deles concentrada em quatro estados-chave governados pela base aliada:  Bahia (2,25 milhões de ausentes), Pernambuco (1,31 milhão), Ceará (1,08 milhão) e  Maranhão (1,02 milhão), cenário que se repete no Norte com o peso do Pará (1,19  milhão). 

Aqui, a abstenção escancara o custo da acomodação das elites políticas locais.  Passado o primeiro turno, em que deputados, senadores e governadores  mobilizaram cada centavo de fundo eleitoral e cada liderança comunitária para  garantir a própria sobrevivência, a máquina partidária nordestina tradicionalmente  tira o pé do acelerador. Para Lula, que vence na região por 61% a 31%, esses 8  milhões de ausentes não são eleitores indecisos; são, em larga medida, eleitores  seus que poderão ficar pelo caminho por falta de transporte rural, desencanto  econômico ou simples desmobilização dos cabos eleitorais locais. 

No fim das contas, a tabela das abstenções revela a assimetria silenciosa desta reta  final: enquanto no Sul e no Sudeste o antipetismo vota por engajamento próprio e  poderá assistir de camarote à desmobilização das periferias trabalhadoras, no Norte  e no Nordeste o lulismo poderá descobrir que o voto dos mais pobres, embora leal, é  o primeiro a ser barrado pela geografia quando os chefes políticos locais dão a  própria eleição por encerrada. 

A captação da abstenção potencial 

Historicamente, as campanhas sabem que é mais barato e eficiente convencer o  eleitor que se absteve a sair de casa do que tentar mudar o voto de quem já  escolheu um dos adversários. 

A segunda rodada do tracking nacional Ipespe/Abrapel, realizada entre 13 e 15 de  outubro, revela que essa disputa pelo comparecimento parte de uma assimetria 

importante de mobilização entre os dois campos. O eleitorado de Flávio Bolsonaro  demonstra hoje maior disposição para ir às urnas do que a base de Lula: 74% dos  apoiadores do senador declaram ter “muito interesse” pela eleição e 92% atribuem  nota máxima (10) à certeza de comparecimento; entre os eleitores do presidente,  esses percentuais recuam para 69% e 88%, respectivamente. 

Essa diferença de engajamento produz efeitos diretos sobre o resultado projetado.  Enquanto no total da amostra estimulada Flávio Bolsonaro aparece com 48% das  intenções de voto contra 46% de Lula (51,2% a 48,8% nos votos válidos), no recorte  restrito aos eleitores que declaram certeza máxima de comparecimento a vantagem  do senador amplia-se de 2,4 para 4,4 pontos percentuais nos votos válidos (52,2% a  47,8%). O levantamento também confirma o peso territorial da abstenção: entre os  20% dos entrevistados que afirmam morar longe de seu local de votação, segmento  mais vulnerável às barreiras logísticas, Lula lidera por 49% a 39%; já entre os 80%  que moram perto da seção eleitoral, Flávio Bolsonaro vence por 51% a 45%. 

Esses dados ajudam a explicar por que a abstenção, assim como os votos brancos e  nulos, ocupa lugares distintos no cálculo político de cada candidatura. Para Lula,  ampliar o comparecimento é condição indispensável para a vitória: o presidente  detém a preferência de 60% daqueles que votaram branco, nulo ou se abstiveram no  primeiro turno (contra 15% de Flávio) e conta com potencial de escolha (“poderia  votar”) entre 93% dos que hoje pretendem anular ou votar em branco. 

Os bolsões de alta abstenção no primeiro turno de 2026 (acima de 30%)  concentram-se principalmente na Amazônia, em partes do Centro-Oeste e em alguns  municípios do interior do Nordeste e Sudeste. 

Nessas áreas, a abstenção é sobretudo involuntária, causada por dificuldades de  transporte e longas distâncias. Já nas grandes cidades, predomina a abstenção  voluntária, motivada por desinteresse e desconfiança. Isso gera uma participação  desigual, com menor peso das regiões interioranas e amazônicas. 

Para combater esse cenário, a campanha do presidente Lula pretende reverter a  evasão de eleitores. No Norte e Nordeste, o foco é cobrar dos prefeitos aliados a  garantia de transporte no dia da eleição, atacando a abstenção logística. Já no Sul e  Sudeste, o desafio é puramente retórico e estratégico: criar um senso de urgência  que tire o eleitor da inércia, evitando que o feriado e a sensação de “fatura  liquidada” definam o futuro do país. 

Por sua vez, não interessa ao candidato Flávio reverter votos nulos, brancos ou  reduzir a abstenção. A razão é que aparecendo à frente nas pesquisas, é melhor se  manter nesse posto e não incentivar comparecimento. 

A guerra pelo voto dos abstencionistas, nulos e brancos é tratada de maneira  distinta pelos candidatos: para Lula ganhar, necessita desses votos; para o senador  Flávio Bolsonaro, o incentivo estratégico opera em sentido inverso. Liderando  numericamente a corrida e enfrentando 68% de rejeição absoluta (“não votaria de  jeito nenhum”) entre os atuais eleitores de branco e nulo, sua campanha não se 

beneficia da expansão indiscriminada do comparecimento. A equação mais favorável  à oposição consiste em preservar a alta coesão de sua própria base e investir na  elevação da rejeição a Lula, não necessariamente para conquistar o voto do eleitor  lulista desencantado, mas para fazer com que, no próximo domingo, ele prefira ficar  em casa. 

* Helcimara Telles é presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais  (Abrapel) e professora da UFMG 

Ver matéria original: https://oglobo.globo.com/blogs/pulso/post/2026/10/artigo-risco-de-desmobilizacao-em-metropoles-e-abismo-logistico-no-interior-ameacam-lula-no-2o-turno.ghtml